sexta-feira, 22 de julho de 2011

Complexo de Superioridade

"Acontece nas melhores famílias. O cara começa do nada, trabalha incessantemente, come alguns sacos de sal, até que dá certo na vida. Prospera. Constrói um nome. Muda de patamar e passa a morar na cobertura.


Palmas pro cara. Ele conseguiu o que, disfarçada ou assumidamente, a maioria de nós deseja.
Finalmente ele chegou àquele ponto na estrada em que uma paisagem bem bonita pode ser avistada. Ainda há muito a caminhar, mas ele alcançou uma vista privilegiada. Olha pra baixo, vê o caminho percorrido e se orgulha do esforço.
Valeu a pena.

E o que ele imagina ser sua hora de paz e equilíbrio é justamente o momento mais perigoso. É quando assombra o fantasma da superioridade.

Convencido de seu inesgotável talento, o pobre vencedor não consegue mais descer do salto. Acaba condenado aos calos – e pode sangrar os pés, mas dali não desce. Pessoas ou empresas nessa situação passam a ter uma visão idealizada de si mesmas. Influenciadas pelo que andam falando de suas figuras, passam a acreditar no mito.
Desprovido de insegurança, o mito não pisa mais no chão: flutua. Não precisa de ninguém: os outros é que precisam dele. Não há mais o que conquistar – o mundo é que passa a sonhar em conquistá-lo.

Você já deve ter convivido com um superiorizado bem de perto. É a empresa que não valoriza o funcionário, porque acredita que é um privilégio trabalhar ali. O chefe que acredita ter ensinado tudo ao subordinado, e nem imagina o quanto com ele aprendeu. O empregador que usa a ameaça de demissão como método de gestão.

Não é preciso ir longe: é o homem certo de que nunca vai ser deixado pela namorada – até descobrir que ela tem um amante.

Complexo de superioridade é uma síndrome perigosa à qual todos nós estamos sujeitos. Uma espécie de miopia que nos impede de ver o mundo como é. Lá do alto, enxergamos mal o que ficou abaixo. Tudo fica pequeno e longe demais. Até o espelho.

Diferente do complexo de inferioridade, que nos mantém ligados demais ao medo e à insegurança, este outro, pelo contrário, nos faz acreditar que nada mais é preciso temer. E é aí que mora o perigo. Cair de um metro ou dois de altura provoca, no máximo, uma fratura. Cair do décimo andar é morte na certa. Do alto ao nada, em poucos segundos.

É bom não se perder nunca de sua humanidade falível, a mesma que o levou à conquista. Nada nos ajuda mais nessa caminhada do que uma parcela de dúvida sobre nós mesmos.

Duvide um pouco – e sempre – de si mesmo. É a forma mais bonita e humana de caminhar."

(Texto de Cris Guerra)